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December 3, 2007

Daqui de cima

Daqui, do alto de um prédio qualquer do Maculusso, observo a cidade ser envolvida por um calor que deixa tudo apático e sonolento, o dia brilha sua luz intensa e cheia de polaridades. As nuvens do cassimbo agora são uma lembrança distante. Lá embaixo, sob o sol nervoso, as zungeiras destilam conversas enquanto calmamente vendem frutas, imunes a tudo. Passantes observam e seguem os seus destinos diários. Um homem de fardo azul escuro sonha com a neve sob o sol de 40graus. Perto do Natal todos os sonhos costumam virar realidade, mesmo aqui, em Luanda, onde tudo é beleza e caos, e onde esses elementos se alinham numa métrica única, numa dissonância quase melódica. Cada passo da multidão lá embaixo é um metrônomo que rege essa musica urbana feita de torres, guindastes, tratores, máquinas e gente apressada. São apenas 4 horas desde o último sono, despertado ainda cedo, mas, lá embaixo, a cidade. Essa realidade que carrega um grau de distopia tão grande, uma anomalia social de difícil entendimento. Nessa interzona, onde emoções e sentimentos se constroem e se desfazem com uma rapidez vertiginosa, os olhos são levados a caminhos que desaguam em outros e outros tornando-se muitas vezes dúvidas e labirintos, mais do que certezas. Mas lá embaixo, a cidade. E só a cidade. André Urso, blablablog



Não o conheço pessoalmente, mas sou fã de carteirinha. Esse cara é uma mente brilhante de palavras doces. Meu blog Angolano de leitura diária. Freaky fan!

November 16, 2007

minha metade angolana

Cai a tarde em Luanda. 17h e o sol arde como meio dia. Entre relatórios e anotações tiro o fone de ouvido para beber um copo d'água e deixo Mat Kearney cantarolando by himself. O som agora é outro, o sotaque é diferente e de repente as pessoas a minha volta me parecem estranhas. Um mês em Angola. Ai meu Deus eu to na Africa?! Um mês depois e a ficha caiu. É engraçado como nos habituamos a correria e nem percebemos que tudo mudou, que você mudou, seus valores mudaram, seus amigos mudaram, seu endereço mudou, que o mundo não parou de girar. Senti saudade de casa.

É como se eu estivesse dividida esquizofrenicamente ao meio. Metade de mim já mora aqui faz tempo e leva uma vida sossegada cheia de amigos queridos, trabalhando durante a semana e indo à praia nos finais de semana. A outra metade sente perdida em algum lugar, presa a alguma coisa. Angústia escrota, é uma expressão perfeita pra definir. Sentimento seguido de palavrão, não necessariamente nessa ordem. Um explica e o outro quantifica.

October 31, 2007

freaky

Quando eu decidi escrever esse blog foi meio no oba oba, por conta da minha amiga Guta, que me alugou um tempão, lembrando do meu antigo blog a respeito das minhas viagens. Viagens uma pinóia, né? Escrevi até a França e deixei tudo pra trás e a partir daí em diante, o pobre foi solenemente abandonado. A freak ana, é por incrível que pareça um nome carinhoso. Eu sabia que uma vez na África, eu, das mais diversas maneiras iria pirar.

Pirar com a riqueza da cultura, da música, da língua, das cores, dos sabores e dos amores. Pirar com a sujeira, a pobreza das ruas, as doenças, a fome… a miséria. Cá estou há duas semanas, e a pergunta que mais odeio quando me fazem aqui é: “Qual foi a sua primeira impressão?” Porra! (Essa é minha primeira resposta tanto para o alto staff quanto para a minha gente) É o tipo de pergunta cretina que você fica sem escapatória para responder. Se disser, “ah é normal”, é mentira. “ah muito sujo e muito pobre né?”, é muito óbvio e beira a idiotice da falta de opinião formada. O mais elaborado que consegui até agora foi “Ah, já estive em Timor Leste. Angola é pinto!”. Fora o meu deboche habitual e o meu sarcasmo genético, continua sendo tudo mentira. A primeira visão é de choque total. É de querer sair correndo e voltar pro avião, chegar em casa, abraçar a minha mãe e continuar a levar a minha vida de princesa. Daí bate a vergonha, do tipo “Pô, mó vacilo dar pra trás agora”. Vacilo é mesmo. Muita expectativa e gente envolvida. Mas que rola esse cagaço, rola meeeesmo.

Então você substitui essa primeira sensação por uma outra, utilizando como justificativa a questão da limpeza e praticidade. Então a minha segunda-primeira-visão é de pegar uma vassoura e sair recolhendo primeiro todo o lixo que tem esparramado. Pegar uma tina imensa de água rasa e dar banho em todas as criancinhas de menos de 3 anos que andam nas ruas sozinhas. Colocar todas as mães das mesmas criancinhas em fila e dar na cara de todas elas. Depois dá vontade de procurar quem regula a temperatura por aqui e mandar baixar o sol, ô calorzinho danado! Pinga suor até debaixo da unha, quando de repente vem mais um abençoado e diz “você ainda não viu o sol de fevereiro”.

Passando o cinturão de miséria, no caminho de ida do aeroporto para casa, finalmente atingimos os cinturão de pobreza. Onde, os barracos da favela (ou musseques) desaparecem e prédios em condições deploráveis tomam conta da paisagem. Maloca total. É roupa pendurada pra tudo quanto é canto e uma poeira que sobe a níveis estratosféricos. Logo alcançamos o que nós expatriados chamamos de cidade alta, uns metros acima do nível do mar de onde se vê a baia, o porto e a ilha de Luanda, parte baladeira da cidade. Minha casa, bairro Miramar, onde o nome já explica a beleza do que de lá se avista.

Olhar o mar é sempre uma surpresa. Daqui da Africa, é como se olhar o Brasil de longe, de dentro da água. Uma água azul que mascara um pouco da pobreza e da miséria. Uma terra promissora, do diamante ao petróleo, da história de nossos ancestrais. Da história do avesso. Do outro lado de quem conta.